Toda vez que uma fábrica anuncia um
investimento em automação, uma pergunta costuma surgir: “e os empregos?”
A preocupação é compreensível. O
avanço de novas tecnologias sempre provocou dúvidas sobre o futuro do trabalho.
Hoje, contamos com dados que ajudam a entender melhor essa relação e mostram
que os efeitos da robotização sobre o emprego são mais complexos do que a ideia
de que cada novo robô representa um trabalhador a menos.
A automação pode reduzir a
necessidade de mão de obra em determinadas atividades, sobretudo naquelas
baseadas em tarefas manuais, repetitivas e padronizadas. Também pode modificar
funções existentes e aumentar a demanda por profissionais com conhecimentos
técnicos para operar, programar, integrar e manter novos equipamentos.
Esse cenário muda o foco da
discussão. Mais do que tentar prever quantos empregos poderão desaparecer, vale
entender quais tarefas tendem a ser automatizadas, como as profissões estão
mudando e se os trabalhadores estão sendo preparados para essa transformação.
Quantos robôs, afinal?
A International Federation of
Robotics (IFR) utiliza o conceito de densidade robótica para medir o nível
de automação industrial de um país. O indicador representa o número de robôs
industriais em operação para cada 10 mil trabalhadores da manufatura e permite
comparar economias de diferentes tamanhos.
Na Coreia do Sul, por exemplo, a
densidade chega a 1.220 robôs por 10 mil trabalhadores, o equivalente a
aproximadamente um robô para cada oito trabalhadores da manufatura.
E o Brasil?
Uma estimativa publicada pela
Fundação Getúlio Vargas em 2025, com base em dados da IFR, aponta cerca de um
robô para cada 830 trabalhadores no Brasil. Convertida para a mesma métrica
internacional, essa relação corresponde a aproximadamente 12 robôs para cada 10
mil trabalhadores.
Mesmo considerando que diferentes
fontes podem apresentar estimativas distintas para o país, o cenário é claro: a
densidade robótica brasileira ainda está muito abaixo da observada nas
principais economias industriais.
Então os robôs roubam os empregos?
Os efeitos da robotização variam
conforme o tipo de atividade e de ocupação. Robôs industriais são especialmente
adequados para tarefas manuais, repetitivas e programáveis, como soldagem,
movimentação de materiais, pintura, embalagem, montagem e paletização.
1. Países altamente robotizados continuam empregando milhões de pessoas
Se a relação entre robotização e
desemprego fosse direta, países com centenas ou até mais de mil robôs para cada
10 mil trabalhadores deveriam enfrentar grandes dificuldades para manter
empregos industriais.
Os dados mostram uma realidade mais
complexa. Coreia do Sul, Alemanha, Japão e Estados Unidos apresentam densidades
robóticas muito superiores à brasileira e, ainda assim, mantêm estruturas
industriais robustas e milhões de trabalhadores empregados.
Isso não significa que a automação não tenha
impacto sobre o mercado de trabalho. Algumas funções podem diminuir ou
desaparecer, enquanto outras surgem ou passam a exigir novas competências.
2. O robô automatiza tarefas e transforma profissões
Imagine uma célula robotizada de
soldagem. Antes da automação, um trabalhador pode passar boa parte da jornada
posicionando peças e repetindo os mesmos movimentos. Com a implantação do robô,
parte dessas tarefas passa a ser executada pela máquina.
A mudança pode reduzir a necessidade
de trabalhadores em determinada operação, mas o processo produtivo continua
exigindo pessoas para preparar materiais, configurar parâmetros, programar,
abastecer a célula, acompanhar o equipamento, verificar a qualidade, realizar
manutenção e solucionar falhas.
Na prática, a automação altera o
conteúdo de muitas funções. O trabalho tende a se deslocar de atividades
repetitivas para tarefas de operação, controle, análise e manutenção dos
sistemas automatizados.
De fato, o que acontece é a máquina
fazer o trabalho de máquina e o ser humano, o de ser humano. Na área de
robótica, é comum escutarmos a frase: “Quando a máquina é melhor do que um
humano, o trabalho é desumano”.
O risco também está do outro lado
Há outra dimensão dessa discussão que
merece atenção. Evitar a automação não garante, por si só, a preservação dos
empregos.
Produtividade, qualidade, custos e
capacidade de competir influenciam diretamente a permanência das empresas no
mercado. Uma indústria que produz com custos elevados, baixa produtividade ou
pouca regularidade pode perder espaço para concorrentes mais eficientes.
E na nossa região?
Em uma região industrial como Brusque
e os municípios do entorno, essa discussão faz parte da realidade de muitos
setores. Têxtil, confecção, metalmecânica e outras atividades industriais
possuem etapas repetitivas e processos nos quais a automação, a visão
computacional e a robótica podem ser aplicadas.
Um bom ponto de partida para uma
empresa é olhar menos para os cargos e mais para as tarefas. Em vez de
perguntar “qual trabalhador podemos substituir?”, a pergunta pode ser: “qual
tarefa faz sentido automatizar?”
Atividades repetitivas,
ergonomicamente inadequadas, perigosas, altamente padronizadas ou que
representam gargalos de produção costumam apresentar maior potencial de
automação.
Nesse contexto, o trabalhador pode
ser direcionado a atividades que exigem maior conhecimento do processo, tomada
de decisão, controle de qualidade, manutenção e interação com sistemas
automatizados. A discussão passa, então, pela capacidade de preparar
profissionais para atuarem em uma indústria cada vez mais tecnológica.
O futuro do trabalho não será
definido apenas pela quantidade de robôs nas fábricas, mas também pela forma
como empresas, trabalhadores e instituições se preparam para utilizá-los.
Para uma região industrial como a
nossa, o desafio está em conciliar automação, produtividade e qualificação
profissional. Isso significa investir em tecnologia onde ela faz sentido,
preparar pessoas para novas funções e criar condições para que as empresas
continuem competitivas.
Os robôs certamente vão mudar parte
do trabalho que conhecemos hoje. Algumas tarefas desaparecerão, outras serão
transformadas e novas competências ganharão espaço. Talvez, por isso, a
pergunta mais importante não seja “os robôs vão roubar nossos empregos?”, mas:
“Estamos preparando nossos trabalhadores e
nossas empresas para os empregos que a automação vai transformar e criar?”
O caso Brasileiro que responde à pergunta
Esse número, porém,
esconde o que já está acontecendo. Em Brusque, Santa Catarina, a Florisa
automatizou o transporte interno de sua tinturaria com cinco robôs móveis
autônomos (AMRs MiR1000), integrados aos elevadores de um prédio de cinco
andares, ao ERP e ao WMS. A movimentação saiu de cerca de 90 toneladas por dia,
feita com empilhadeiras, para 200 toneladas por dia, um aumento de 122%, sem
redução do quadro de funcionários.
O que foi
automatizado ali não foi o ofício do tintureiro: foi empurrar carga pesada de
um andar para o outro. A tarefa que saiu das mãos humanas era justamente a que
ninguém disputava. 🎥 Veja
os robôs em operação
International Federation of Robotics — Robot
Density Surges in Europe, Asia, and Americas. Disponível em: https://ifr.org/ifr-press-releases/news/robot-density-surges-in-europe-asia-and-americas
Fundação Getúlio Vargas — “A nova revolução da IA virá da robótica”. Disponível
em: https://portal.fgv.br/artigos/nova-revolucao-da-ia-vira-da-robotica